O Sofrimento Evolutivo da Natureza e na Humanidade

por: Huberto Rohden

Toda a vida da natureza em evolução está baseada numa espécie de sorriso sadio. Não há evolução sem resistência ou sofrimento.

O sofrimento sadio está a serviço da integridade e evolução do corpo. Se um ferimento não causasse dor, nenhum organismo existiria sem lesões corporais.

Na humanidade, porém, aparece um novo motivo de sofrência, que não visa apenas o corpo, mas a realização do homem integral.

Sem sofrimento não há evolução superior, mas perpétua estagnação.

O homem é um homem realizável, mas não realizado. Pode estar terminada a sua evolução corporal – falta, porém, a sua realização hominal.

Diz um pensador moderno: “Deus creou o homem o menos possível, para que o homem se possa crear o mais possível”.

Essa transição ascensional do menos para o mais implica em sofrência, num sofrimento sadio e evolutivo.

Se não houvesse sofrimento na humanidade, haveria eterna estagnação, ou até involução.

Mas as leis cósmicas do Universo exigem imperiosamente evolução.

O centro de todo o homem é o seu Eu espiritual, a sua alma, o seu Deus interno. Mas esse Deus interno no homem se acha, de início, em estado embrionário, meramente potencial.

Para desenvolver esse embrião divino, deve o homem atualizar o que é apenas potencial – e isto requer esforço, luta, sofrimento.

Uma semente não pode brotar em planta, se não se romper o invólucro duro da semente – e isto lembra um sofrimento.

O destino do homem, aqui na terra, é iniciar a relação de uma natureza, que é sua felicidade. Esta felicidade é compatível tanto com o gozo como com o sofrimento, porque gozo e sofrimento são atributos do ego periférico, ao passo que felicidade (ou infelicidade) estão no Eu central.

O que mais deve preocupar o homem não é gozo ou sofrimento, mas felicidade ou infelicidade. Feliz é todo o homem cuja consciência está em harmonia com a Consciência Cósmica, com a Alma do Universo, com Deus. Gozo e sofrimento, como já dissemos, vêm das circunstâncias externas, que não obedecem ao homem – felicidade ou infelicidade vêm da sua substância interna, que obedecem ao homem.

Melhor um sofredor feliz do que um gozador infeliz.

O principal não é ter sucesso ou insucesso social, o principal é ser realizado e não frustrado espiritualmente.

Em muitos casos, o sofrimento ou insucesso social, impede a frustração e promove a realização existencial. Isto depende da atitude que o homem assumir em face do sofrimento.

Há entre os sofredores três classes:

1 – Os revoltados assumem atitude negativa em face do sofrimento, que, por isto, os leva à frustração.

2 – Os resignados assumem atitude de estoicismo passivo, toleram em silêncio o inevitável – estes não se realizam nem se frustram pelo sofrimento, mas ficam num status quo, numa estagnação neutra.

3 – Os regenerados assumem uma atitude positiva em face do sofrimento, servindo-se dele para sua purificação e maturação espiritual. Para estes, o sofrimento, embora doloroso, conduz à felicidade.

O sofrimento em si não pode perder nem redimir o homem – o homem é que se perde ou que se redime pela atitude que assumir em face do sofrimento.

Disse o Mestre aos discípulos de Emaús: “Não devia o Cristo sofrer tudo isso para entrar em sua glória?”

O sofredor sensato compreende estas palavras e pode dizer: não devia eu então sofrer tudo isso para assim entrar na minha realização existencial?

É sabedoria evitar o que é evitável – e tolerar calmamente o que é inevitável.

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